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Dicas de educação financeira para bolsistas.

No dia 10/08/2017, apresentei uma palestra sobre educação financeira, a convite da Profa. Aurelia Acuña, no evento “Boas vindas aos participantes do PROBEX 2017”, ocorrido no CT/UFPB. Após a palestra, dei uma entrevista ao Ítalo Ramon, estudante de jornalismo. A seguir, reproduzo o que está no site da UFPB (Fonte: Agência de Notícias da UFPB – Com Assessoria).

A educação financeira deve iniciar desde cedo, com os pais ajudando o desenvolver do jovem em casa ou deve-se esperar o primeiro salário para que comece esse processo?

Se um adolescente que recebe o primeiro salário ou a primeira bolsa e gasta tudo, a culpa não é dele; a culpa é dos pais dele e da nossa sociedade que não tem o hábito de dar educação financeira. O jovem gasta tudo que ganha porque viu nos pais a mesma ação: a de pessoas que gastam tudo sem controle, sem planejamento, sem responsabilidade. É importantíssimo proporcionar educação financeira desde muito cedo, mas é essencial que a criança veja em seus pais as atitudes responsáveis e conscientes do uso do dinheiro.

Não dizer “não” ou não dizer “depois” à criança pode fazê-la crescer “mimada”. Nesse caso, é possível que, no futuro, ela tenha o mesmo comportamento com os filhos? É possível que caiba à vida ensinar a ela que ela deve mudar sua atitude?

A vida acaba tentando ensinar, dar as “pancadas”, mas é mais fácil que, apesar das pancadas, a pessoa continue fazendo errado, porque não foi educada assim (agir da maneira correta). Ela vai passar esse exemplo errado aos seus filhos, e isso vai se perpetuar: suas atitudes vão refletir nas dos seus filhos, que vão passar para os seus netos. Você vai apenas sobreviver financeiramente. Não vai ter perspectiva de mudança e vai continuar vivendo um dia após o outro, como se fosse um animal irracional, sem pensar em prosperar. A ideia é que tenhamos planejamento e controle com o objetivo de prosperar. Até podemos levar pancadas, mas de variáveis externas, que estão fora do nosso controle. Eu vou planejar e prosperar. Meus filhos vão me ver como exemplo e vão se educar pelo exemplo, muito mais do que por uma educação formal, uma educação financeira.

Uma parte interessante da palestra foi a do consumismo, que acontece quando o individuo não tem interesse em comprar nada, mas, vendo algum objeto nas mãos de um amigo ou de um famoso, passa a ter interesse. Qual dos dois afeta mais: a inveja de ter a mesma coisa que um amigo (e muitas vezes para se inserir num grupo social), ou de ver em um famoso e, pelo fato de admirá-lo, querer ser “igual” a ele?

Minha percepção é de que os mais próximos influenciam mais. Você pode até querer ser igual ao seu ídolo, querer usar o que ele tem, mas se não conseguir, ele não vai saber de nada. Já com meus amigos, eu vejo os tênis, relógios, carros, camisas, e, como são mais próximos, eu vou me sentir mais rejeitado, se não tiver também. Tomar decisões contra o consumismo é difícil, pois são todos contra a gente. Por exemplo, o mercado (marketing, propaganda) está contra a gente; a internet (marketing digital) está contra a gente; temos um bombardeio de publicidade e propaganda presente no Google, Facebook; o governo tem uma política de crédito voltada ao consumo, não financia investimento, mas nos incentiva a gastar sem nos dar uma educação financeira; e também nossos amigos comprando coisas que não precisam e nos influenciando a comprar as mesmas coisas. Então é você sozinho contra o mundo. Se você não mantiver o foco e não planejar, você nunca vai conseguir prosperar.

Na vida de um adolescente que não recebe muito, mas não chega a gastar tanto, quanto é necessário para guardar e planejar uma viagem ou comprar algo caro?

É importante que a gente comece a reservar, mesmo que seja um pouquinho. Se eu reservo 1%, é melhor do que gastar mais do que eu tenho. 1%, 2%, 10%, 20%, vai depender do que você realmente quer e do que você precisa. Muitos adolescentes ganham pouco, mas não gastam com quase nada, pois são os pais que pagam todas as contas. Então, sobra para ele gastar com o lazer (festa, cinema, shopping) e os desejos pessoais dele. Isso não pode consumir todo o seu dinheiro. Tem que controlar para que consuma no máximo 50%, e você possa guardar os outros 50%. Agora, se é um adolescente que não mora mais com os pais, ganha pouco, tem filho, aí já não posso querer que ele gaste só metade do que ele recebe. Por isso, os planos dependem de cada caso.

E no caso da bolsa, a gente sabe que não é muito, mas, querendo ou não, já é uma ajuda, como ele tem que fazer para administrar as novas responsabilidades que a idade e até a universidade impõem?

Tudo depende do seu propósito. Para alcançar os meus objetivos, eu preciso fazer uma conta ao contrário. Se eu quero fazer uma viagem e nela eu quero gastar 2.000,00 reais (e eu ganho todo mês 500,00 reais de bolsa), é preciso juntar 100,00 reais por mês para que daqui a 20 meses eu possa gastar o que eu planejei. Pra conseguir juntar os 100 reais, eu tenho que fazer todas as minhas despesas caberem em 80% do meu salário e, se não couber, eu tenho que fazer escolhas para não extrapolar meu limite. Se eu saio todo fim de semana, passo a sair um sim e outro não. Eu tenho que fazer meus gastos se enquadrarem no resto da minha renda, porque eu sei que tenho que ter 100,00 reais todo mês para alcançar meus objetivos. Ou seja, se eu não tenho objetivos, eu não vou ter nenhuma motivação pra guardar esses 100,00 reais.

A definição para uma boa educação financeira de um universitário seria responsabilidade e planejamento?

Exatamente. Mas tem que entender que planejar é você sair de onde você está para alcançar seus objetivos. Planejar é ter seus objetivos e saber como você vai chegar lá e, nesse caminho, é necessário que você tenha responsabilidade e disciplina para manter o foco, para manter o que foi planejado e não desviar do que foi planejado.

Quais os fatores que indicam na vida de uma pessoa que ela está gastando mais do que recebe ou que está gastando indevidamente? Como ela deve fazer para repensar os gastos dela?

Os fatores que nos levam ao endividamento são o consumismo, materialismo e imediatismo. Eu sei que eu estou mal quando eu estou devendo ao banco, quando tenho um monte de empréstimo, quando não tenho crédito, quando falta dinheiro todo mês, quando estou com saldo negativo, quando utilizo o limite do cheque especial. Agora, não basta apenas querer mudar. Tem que saber mudar e colocar em prática esse querer. Eu vou ter que me sacrificar, cortar os meus gastos supérfluos, os que me dão prazer e qualidade de vida, para poder recuperar meu padrão de vida e assim manter esse padrão, sem me meter na encrenca do endividamento.

O que você indica: cortar os gastos de uma vez ou cortar aos poucos?

Dependendo do grau, é melhor cortar de uma vez só. Eu tenho a ideia de que uma alta dose de um remédio pode matar o paciente, mas também doses muito pequenas podem não fazer o efeito nenhum. Eu prefiro correr esse risco para que haja uma melhoria na vida dessa pessoa.

 

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